MÚSICA FRANCESA Meu nome é Ziyad, médico, e me tornei um amante da música francesa aos 12 anos, quando escutei pela primeira vez "Sous le Ciel de Paris", que passei a ouvir sempre no velho toca-fitas de meu pai. Ao longo dos anos, esse repertório, não apenas cultural, mas sobretudo emocional cresceu imensamente. Criei esse blog para compartilhar informações com todos aqueles seduzidos por essas chansons.
Nesse próximo sábado, dia 16 de março de 2013, no Otto Bistrot, acontecerá o show ALLÉGRESSE Chanson Française. Esse show, que já teve quatro músicos em sua apresentação, reestréia agora numa versão de poche, mais reservada, com dois componentes: Tatiana Pereira, cantora, e Rafael Nascimento, violinista. Preparados para um repertório romântico como La Bohème, Ne me Quitte pas, Les Feuilles Mortes, La Vie en Rose, Eux de Mars (Tom Jobim)? É a primeira vez que vou assistir essa dupla e estou com muita expectativa. Prometo que, na próxima semana, vou postar outra vez aqui no blog sobre esse show, desde já imperdível para mim, baseado no que li sobre Tatiana Pereira em seu site www.tatianapereiracantora.com Ela nasceu em Minas Gerais onde estudou teatro. Foi parar em Paris em 1998 onde continuou a se dedicar às artes cênicas. Em 2001, estudou ópera chinesa em Taiwan. Em 2009, decidiu não abrir uma escola de francês, mas mergulhar na música. Já desenvolveu também o show "É um Luxo Só" em homenagem à Ary Barroso. A potência da arte nas veias para quem é filha de um pai que tem uma roda de samba em Minas. Já estou impressionado com essa cantora, só em conhecer a sua trajetória de vida.
Nicola Són nasceu em Paris, mas adotou a cidade do Rio de Janeiro. Descendente de armênios (lembrou de Charles Aznavour?), o cantor descobriu a música brasileira na adolescência ao ouvir "Lígia" de Tom Jobim, interpretada por João Gilberto e Stan Getz.
Aos 23 anos, aterrisou na cidade do Rio de Janeiro para expandir suas fronteiras sonoras.
Foi com a vivência adquirida sobre o Brasil, somada a noites regadas a batuque e boemia no bairro da Lapa, que Nicola Són gravou o CD Parioca. Nesse CD, a língua francesa requebra ao som do cavaquinho e do pandeiro. Um espetáculo que Nicola Són chamou de samba-chanson, o encontro musical entre Brasil e França.
PARIOCA (CD) / Nicola Són / Gravadora Tratore (O CD pode ser encontrado na Livraria Cultura por R$ 34,90)
Nessa última sexta-feira, dia 22/02, fui ver Bernard Fines no All of Jazz. Fines cantou acompanhado de um trio. A noite reservou um repertório francês em ritmo de jazz, bossa nova com sotaque dos Pirineus, e inclusive alguns clássicos brasileiros cantados na língua de Victor Hugo. Sentir de perto Bernard Fines soltar “Meu Bem Querer” de Djavan em francês traz muita paz.
Enquanto Fines cantava, eu tentava adivinhar como veio parar em nosso país. Sem material sobre ele, comecei a inventar a sua história. O bisavô era português que migrou para Recife, tornou-se um latifundiário, se envolveu com uma índia e tiveram quatro filhas. Uma delas, a avó de Bernard, conheceu um francês pagão cuja penalidade, por não ser católico, era morar numa colônia na América do Sul. Ambos embarcaram para Toulousse quando a pena foi revogada. Duas gerações após, o neto se forma em antropologia e, influenciado pelos estudos de Lévi Strauss, retorna ao Brasil para se conectar com a matriz da avó cabocla.
Em poucos instantes, devolvi com facilidade um passado ao artista cuja vida eu tentava encaixar numa lógica, como se eu tivesse abortado em mim “as linhas de fuga” deleuziana. Após uma taça de champagne, a gente pode criar qualquer coisa. Quase pedi uma dose de vinho verde depois. Ando cercado de Pernambuco no último mês. Estou no meio da leitura de “Casa Grande e Senzala” de Gilberto Freyre, iniciando-me na linguagem nativa de “Boi sem Asas” da escritora Nina Maniçoba (de Floresta-PE) e sacudido com a recente descoberta de Kleber Mendonça Filho (diretor do filme “O Som ao Redor”). Preciso conhecer com urgência Recife e suas pontes abençoadas de gente interessante.
Ao final da apresentação, o depositário de todas as minhas confabulações sentou-se à nossa mesa. Teria sido essa uma atitude para desmontar a minha imaginação? Naquela hora, pude entrar em contato com o mundo real, concreto, único lugar onde as coisas se tocam de mentira. A sensação produzida pela arte pode, às vezes, ser a nossa única verdade. Na proximidade com monsieur Bernard, ele mostrou o quanto é simpático, nem parece francês. Confessou que a alegria das pessoas no Brasil é a parte mais atraente. Um povo sorridente, apesar dos problemas. Ao me lembrar da sua interpretação de Djavan, cheguei a pensar que o cruzamento não foi com uma índia, mas havia sangue negro esparramado. Eu me esforçava para dar corpo à história que eu tinha inventado minutos
antes.
O músico contou-me, ao final, que veio morar no Brasil para trabalhar como engenheiro no Paraná, mas sempre foi um apaixonado pela riqueza da música brasileira, sobretudo por Caetano Veloso, Tom Jobim, Milton Nascimento e Chico Buarque. Comentou o quanto a música brasileira é vasta em acordes.
Bernard Fines é prodigioso em fazer acordos com acordes. Um francês disfarçado de mestiço, sintetizando toda a pluralidade de encontros. Um casamento que deu certo. Só faltou o cartório. Où est le maire ?
BOI SEM ASAS, de Nina Maniçoba Ferraz, Dobra Editorial, 2012
Bernard Fines é nativo de Toulouse. Mudou-se para o Brasil em 1992 para trabalhar como engenheiro. Em 2003, deu início à carreira como músico profissional. Cantor, compositor e músico (toca piano, violão, contrabaixo). Enquanto que para Proust os belos livros estão escritos numa espécie de língua estrangeira, é na língua materna que Fines começa registrando a intensidade do encontro, ao interpretar clássicos de sua pátria com arranjos de jazz.
Bernard lançou em 2008 o CD “Sous le Ciel de Paris” (Delira Música) onde canta renomadas canções como La Bohème (Aznavour), Que reste-t-il de nos amours (Charles Trenet), Ne me quitte pas (Brel), Comme d’habitude (Claude François), C’est si bon (Yves Montand), Les feuilles mortes (Jacques Prévert), etc.
Bernard Fines & Júlio Bittencourt Jazz Trio se apresentam nessa sexta-feira, dia 22 de fevereiro, às 22 h 30 min , na casa All of Jazz. O local é bastante enxuto, acomoda 50 pessoas sentadas em um único e pequeno salão, proporcionando um clima mais intimista entre quem toca e quem ouve. No andar superior, há uma sala recheada de CD’s só de jazz e bossa nova, com três mil títulos à venda. Antônio Augusto Deleuse, dono do bar, diz que “quanto aos CD’s, compro e ponho à venda os que quero para mim.” Deleuse, ex-engenheiro da Rhodia, uma vez me falou, brincando é claro, que sonhava em abrir um bar onde ele pudesse beber sem pagar. Um devaneio que tem marcado a diferença na Vila Olímpia há 18 anos.
Et rien qu'une chanson Pour convaincre un tambour" Jacques Brel
"A desterritorialização enfraquece o reinado da arte em oposição à vida,
promove o encontro entre vida e arte,
onde uma e outra se tornam indiscerníveis." Deleuze
Jacques Brel, apesar de uma infância e juventude burguesa em Bruxelas, cantava os pobres, os tímidos, os frustrados, os desesperados, os vencidos, proclamando que toda a gente precisa de ternura. Em 1956, enquanto se acentuava a Guerra de Independência da Argélia, Brel escreve “Quand on n’a que l’amour”, que testemunha a própria oposição do cantor à guerra. Ao pequeno belga que leu na escola Victor Hugo e Albert Camus, não faltou imaginação para dar voz aos oprimidos do norte da África. Nessa canção, observa-se a técnica de canto utilizada por Brel, o crescendo, onde se aumenta progressivamente o volume e a dinâmica da canção. Em “Quand on n’a que l’amour”, o seu crescendo e final explosivo serão retomados em outras composições e ficarão conhecidos como “crescendo brélien”. A soberania de uma voz e de um violão nos convocam, no último verso dessa música, para a grandiosidade da ternura. Alors sans avoir rien Que la force d’aimer, Nous aurons dans nos mains Amis, le monde entier
Quand on n'a que l'amour
Paroles et Musique: Jacques Brel 1956 autres
Quand on n'a que l'amour À s'offrir en partage Au jour du grand voyage Qu'est notre grand amour Quand on n'a que l'amour, Mon amour toi et moi Pour qu'éclatent de joie, Chaque heure et chaque jour. Quand on n'a que l'amour Pour vivre nos promesses Sans nulle autre richesse Que d'y croire toujours Quand on n'a que l'amour Pour meubler de merveilles Et couvrir de soleil La laideur des faubourgs Quand on n'a que l'amour Pour unique raison Pour unique chanson Et unique secours Quand on n'a que 'amour Pour habiller le matin Pauvres et malandrins De manteaux de veloursQuand on n'a que l'amour À offrir en prière Pour les maux de la terre, En simple troubadour Quand on n'a que l'amour À offrir à ceux-là Dont l'unique combat Est de chercher le jour Quand on n'a que l'amour Pour tracer un chemin Et forcer le destin À chaque carrefour Quand on n'a que l'amour Pour parler aux canons Et rien qu'une chanson Pour convaincre un tambour Alors, sans avoir rien Que la force d'aimer, Nous aurons dans nos mains, Amis, le monde entier
Henri Salvador é americano. Do sul. Nascido em Caiena, capital da Guiana Francesa, filho de um professor descendente de espanhóis e de uma mãe de origem indígena, amazônica, mudou-se para Paris aos sete anos.
Henri morou no Rio de Janeiro por quatro anos durante a Segunda Guerra Mundial. O músico chegou à cidade maravilhosa em 1942 para uma temporada de shows no Copacabana Palace, mas falido e logrado pelo gerente do hotel, conseguiu construir uma reputação no Cassino da Urca.
Por ocasião de sua morte em 2008, obituários do mundo inteiro o apresentavam como o inspirador de Tom Jobim na criação da Bossa Nova através da música "Dans mon Île" (1957). Em entrevista a uma rádio francesa, Henri contou que foi no filme italiano "Europa da Noite"(1959) que Tom Jobim ouviu, pela primeira vez, a canção "Dans mon Île" e comentou com Sérgio Mendes: " É isso aí. É o que nós temos de fazer - atrasar o andamento do samba, botar acordes modernos e transformá-los num ritmo completamente novo. " Tom assistiu ao filme no Brasil em 1960, quando já tinha feito várias composições como "Chega de Saudade", "Samba de Uma Nota Só", "Desafinado", "Corcovado". Vamos supor, entretanto, que "Dans mon Île" tenha estourado em disco antes do filme, e o 45 rpm, com um buraco no meio, tenha chegado às mãos de Tom em 1957. Ele já havia feito "Correnteza", "Tereza da Praia", "Lamento no Morro".
Assim, pode-se dizer que Henri Salvador, condecorado pelo governo brasileiro em 2006, por sua "contribuição à criação da bossa nova", inspirou Jobim a fazer o que de há muito já fazia.
Será que o papel de Henri Salvador na Bossa é um mito?
Eu acredito que uma música autêntica é tão impessoal que deixa de ser autoral. A Bossa Nova tá na boca do povo, pertence ao coletivo. Não interessa se o compositor guianês teve alguma ou nenhuma influência sobre o nosso maestro maior. Um grande músico é aquele que consegue ser atravessado por vários fluxos e dar uma unidade a eles. E isso Salvador e Jobim souberam fazer tão bem.
O melhor da Gastronomie Française com o melhor de la musique
Querem jantar nesse final de semana um cardápio francês com a melodia francófona na beira do ouvido? Recomendo a todos o jantar "Uma noite com Piaf" que acontecerá nessa sexta-feira, dia 26 de outubro, no Orbacco, um espaço gastronômico no Sumarezinho. O evento será embalado pela cantora Sônia Andrade que interpretará o repertório de Edith Piaf ao som do acordeon de Tadeu Romano. Uma das poucas oportunidades de se ouvir a voz cativante de Sônia embalada pelo acordeon de Tadeu que nos transporta para uma época mais artesanal onde a lágrima e o aplauso tomam o lugar de um mundo cheio de fraudes.
Eu já fui duas vezes nesse evento e o recomendo bastante. O jantar preparado pelo chef Luis Felipe Calmon é para inglês ver (nem preciso dizer que o local é uma escola de gastronomia). Sou fã número um da Sônia desde quando a conheci em 2010, essa mineira que morou em Montpellier e parece ter o sangue todo substituído por vinho rouge quando canta, tal a força de sua interpretação. O agenciamento com o acordeonista não esconde a pureza de um encontro, num ambiance que nos conecta com o que há de mais genuíno em nós, a pluralidade do mistério.
Uma Noite com Piaf
26/10/2012 às 20 h 30 min Orbacco Espaço Gastronômico Rua Cuxiponés, 125 Sumarezinho (11) 3873-0098