MÚSICA FRANCESA Meu nome é Ziyad, médico, e me tornei um amante da música francesa aos 12 anos, quando escutei pela primeira vez "Sous le Ciel de Paris", que passei a ouvir sempre no velho toca-fitas de meu pai. Ao longo dos anos, esse repertório, não apenas cultural, mas sobretudo emocional cresceu imensamente. Criei esse blog para compartilhar informações com todos aqueles seduzidos por essas chansons.
Nesse último sábado, fui assistir ao tão esperado show no Otto Bistrot. O restaurante é muito acolhedor, situado numa casa enfeitada com peças ao estilo vintage, comandado por uma família. Não espere encontrar um catálogo com o cardápio. Ele está todo escrito na parede. Sentiu um clima europeu?
Conheci o show Allégresse e sua intérprete Tatiana Pereira. Sentei-me colado com a dupla que, ao longo da noite, nos fez sentir num pequeno cabaret do Quartier Latin, interpretando Piaf, Aznavour, uma nova versão de Voyage,Voyage (Desireless), composições da própria Tatiana, Zaz, Joe Dassin, e a canção "Águas de Março", de Tom Jobim, na versão francesa de Georges Moustaki.
Embalado pela voz e violão da dupla, acomodado numa mesa grudado com esse trio (sim, a Tatiana está grávida), eu quase alcancei o que é visceral.
Henri Salvador é americano. Do sul. Nascido em Caiena, capital da Guiana Francesa, filho de um professor descendente de espanhóis e de uma mãe de origem indígena, amazônica, mudou-se para Paris aos sete anos.
Henri morou no Rio de Janeiro por quatro anos durante a Segunda Guerra Mundial. O músico chegou à cidade maravilhosa em 1942 para uma temporada de shows no Copacabana Palace, mas falido e logrado pelo gerente do hotel, conseguiu construir uma reputação no Cassino da Urca.
Por ocasião de sua morte em 2008, obituários do mundo inteiro o apresentavam como o inspirador de Tom Jobim na criação da Bossa Nova através da música "Dans mon Île" (1957). Em entrevista a uma rádio francesa, Henri contou que foi no filme italiano "Europa da Noite"(1959) que Tom Jobim ouviu, pela primeira vez, a canção "Dans mon Île" e comentou com Sérgio Mendes: " É isso aí. É o que nós temos de fazer - atrasar o andamento do samba, botar acordes modernos e transformá-los num ritmo completamente novo. " Tom assistiu ao filme no Brasil em 1960, quando já tinha feito várias composições como "Chega de Saudade", "Samba de Uma Nota Só", "Desafinado", "Corcovado". Vamos supor, entretanto, que "Dans mon Île" tenha estourado em disco antes do filme, e o 45 rpm, com um buraco no meio, tenha chegado às mãos de Tom em 1957. Ele já havia feito "Correnteza", "Tereza da Praia", "Lamento no Morro".
Assim, pode-se dizer que Henri Salvador, condecorado pelo governo brasileiro em 2006, por sua "contribuição à criação da bossa nova", inspirou Jobim a fazer o que de há muito já fazia.
Será que o papel de Henri Salvador na Bossa é um mito?
Eu acredito que uma música autêntica é tão impessoal que deixa de ser autoral. A Bossa Nova tá na boca do povo, pertence ao coletivo. Não interessa se o compositor guianês teve alguma ou nenhuma influência sobre o nosso maestro maior. Um grande músico é aquele que consegue ser atravessado por vários fluxos e dar uma unidade a eles. E isso Salvador e Jobim souberam fazer tão bem.