MÚSICA FRANCESA Meu nome é Ziyad, médico, e me tornei um amante da música francesa aos 12 anos, quando escutei pela primeira vez "Sous le Ciel de Paris", que passei a ouvir sempre no velho toca-fitas de meu pai. Ao longo dos anos, esse repertório, não apenas cultural, mas sobretudo emocional cresceu imensamente. Criei esse blog para compartilhar informações com todos aqueles seduzidos por essas chansons.
Há dois anos, li "Ilusões Perdidas" de Balzac. Testemunhei, ao longo das setecentas páginas, a luta de Lucien de Rubempré para vencer como um escritor na Paris do século XIX. Os salões dos intelectuais, as livrarias, as atrizes de teatro, as amantes, as carruagens, os alfaiates.
Um século depois, Charles Aznavour, na canção Je me voyais dejà, realiza o mesmo percurso de Lucien, abandonando a província para ter êxito na capital do mundo.
O que os protagonistas de Balzac e Aznavour possuem em comum? O devaneio, o desejo, a loucura de arriscar. O que encontram pelo caminho? As pobres refeições, os decadentes pensionatos, as mulheres temporárias, os cachês arruinados, a frustração. Seduzidos pela sociedade do espetáculo, ambos esqueceram o conselho de Sêneca de que "a gente só é feliz quando não cria expectativas." Como superam as derrotas da cidade grande? Com uma exagerada autoconfiança. Um lutando com sua pena até o fim, enquanto o outro com a sua voz. Conseguiram reconhecimento ainda em vida. Aznavour segue cantando com todo o seu vigor aos 89 anos, enquanto que Balzac, mesmo chegando ao fim da vida falido pela compra compulsiva de obras de arte, teve seu velório cheio de gente, representando tout le peuple de la Comédie Humaine.
A dix-huit ans j´ai quitté ma province Bien décidé à empoigner la vie Le cœur léger et le bagage mince J´étais certain de conquérir ParisChez le tailleur le plus chic j´ai fait faire Ce complet bleu qu´était du dernier cri Les photos, les chansons et les orchestrations Ont eu raison de mes économiesJe m´voyais déjà en haut de l´affiche En dix fois plus gros que n´importe qui mon nom s´étalait Je m´voyais déjà adulé et riche Signant mes photos aux admirateurs qui se bousculaientJ´étais le plus grand des grands fantaisistes Faisant un succès si fort que les gens m´acclamaient debout Je m´voyais déjà cherchant dans ma liste Celle qui le soir pourrait par faveur se pendre à mon couMes traits ont vieilli, bien sûr, sous mon maquillage Mais la voix est là, le geste est précis et j´ai du ressort Mon cœur s´est aigri un peu en prenant de l´âge Mais j´ai des idées, j´connais mon métier et j´y crois encorRien que sous mes pieds de sentir la scène De voir devant moi le public assis, j´ai le cœur battant On m´a pas aidé, je n´ai pas eu d´veine Mais au fond de moi, je suis sur d´avoir du talentCe complet bleu, y a trente ans que j´le porte Et mes chansons ne font rire que moi J´cours le cachet, j´fais du porte à porte Pour subsister j´fais n´importe quoiJe n´ai connu que des succès faciles Des trains de nuit et des filles à soldats Les minables cachets, les valises à porter Les p´tits meublés et les maigres repasJe m´voyais déjà en photographie Au bras d´une star l´hiver dans la neige, l´été au soleil Je m´voyais déjà racontant ma vie L´air désabusé à des débutants friands de conseilsJ´ouvrais calmement les soirs de première Mille télégrammes de ce Tout-Paris qui nous fait si peur Et mourant de trac devant ce parterre Entré sur la scène sous les ovations et les projecteursJ´ai tout essayé pourtant pour sortir de l´ombre J´ai chanté l´amour, j´ai fait du comique et d´la fantaisie Si tout a raté pour moi, si je suis dans l´ombre Ce n´est pas ma faut´ mais cell´ du public qui n´a rien comprisOn ne m´a jamais accordé ma chance D´autres ont réussi avec un peu de voix mais beaucoup d´argent Moi j´étais trop pur ou trop en avance Mais un jour viendra je leur montrerai que j´ai du talent
Hoje, na noite de 8 de outubro de 2012, faz quatro anos que eu e a Michele começamos a namorar lá no último andar daquela comedeira do SESC Avenida Paulista .Nos casamos no ano passado. Em homenagem a ela, vou postar esse conto real, autobiográfico, que aconteceu com a gente em junho de 2010 quando nos apresentamos no Coral da Aliança Francesa.
"FOTOGRAFIA"
Pensei que eu não
tivesse mais idade para isso.
Era o Festival de Música Francesa no
teatro da Aliança. Naquela noite de sexta-feira de junho de 2010, seria também
a estréia do recém criado coral da Aliança. Nele, eu debutei ao lado de
Michele.
No prévio aquecimento vocal, o meu sangue
no coração na temperatura que a água ferve nas grandes altitudes, a respiração
precisou ficar mais acelerada para compensar o ar rarefeito aqui nas alturas, o
suor das mãos eram as lágrimas que não conseguiam escorrer pelo canto esquerdo
da órbita, além de uma espera sem fim que é a forma como um filho muçulmano
aguarda pela visita do papai Noel na noite de Natal quando se é criado no maior
país católico do mundo.
A exibição era a esperança reeditada de
um menino em cuja escola deixou de existir o coral quando ele completou a idade
mínima para ser admitido. Na infância, tinha apenas seis ou sete anos e via
seus contemporâneos de dez anos cantando melodias que lhe ameaçavam desvelar
novos mundos. E talvez novos monstros também. A irmã de onze anos dizia que
nunca tinha sido aceita no grupo de cantores do colégio, porque tinha a voz
rouca, e eu meramente acatava essa explicação. Eu era pequeno demais para
entender a justificativa. Menor ainda para duvidar dela. Meramente aceitei com
a resignação dos anjos falhados a história que me era narrada.
Ao lado da regente, dos meus colegas e da
Michele, saímos da sala de treinamento no segundo andar e descemos as escadas
que se espichavam para dar a dimensão de Mont Blanc. Separei-me da Michele, já
que as mulheres iriam entrar pelo lado esquerdo do auditório, e nós, pelo
direito. Ao pisar no tapete vermelho dessa ópera de Paris, senti os meus pulsos
bailarem confusamente nos meus punhos. Faz uma vida que eu sequer sentia os
meus pulsos. A sola direita do meu pé formigou, enquanto a esquerda se recusava
a formigar e era ela quem sustentava todo o resto do meu corpo agora. Sempre
preferi ser sustentado por qualquer coisa de direita. Político de direita,
ideologia de direita, perfil direito de Deus. Agora é a minha mão direita quem
escreve esse texto. Não andava mais em linha reta. Os espectadores seriam
capazes de jurar que eu tinha esvaziado aquelas taças de chamapagne na
antessala do teatro. Juro que cheguei cedo ao prédio e elas já estavam vazias,
aguardando o término da apresentação para aí então receberem o líquido
borbulhante que lembraria aos convidados que o ser humano foi feito com quatro
doses de champagne a menos.
Dei passagem aos demais colegas para adiar
ainda mais a expectativa. Entrei sur scène como uma criança que vai enfim em
busca de seu retardado presente. Lá de cima, o teatro se transformava num
templo onde os querubins de gesso emolduravam seus rostos para se concentrarem
na música, e a platéia de rostos humanos era pura nostalgia.
Eu era o legítimo menino procurando pela
mãe na platéia. Ela não pôde estar aqui essa noite. A mãe já tão borrada não
apenas pelas nossas geografias, mas também pela distância no tempo. Os senhores
da direita eram meus contemporâneos da escola, disfarçados de trinta anos mais
envelhecidos do que eu. Se o avô de Jean Paul Sartre se orgulhava de que o
pequeno Poulou se balançava ao som de uma colher mexendo numa xícara,
anunciando “ele tem ouvido”, eu pelo contrário nasci sem ouvido. Eu era o mais
desafinado no coro. E o mais feliz também.
Já que Assis Valente foi capaz de fazer
uma francesa subir o morro e adentrar num terreiro de macumba na canção “Tem
Francesa no Morro”, eu por outro lado me inaugurava através da dança dos lábios
e da excitação dos pulmões, respirando a cultura francesa que tanto fertilizou
o imaginário do meu povo, me incitando a estudar francês sozinho em casa aos
doze anos. Antigamente, toda família síria ou libanesa tinha um piano para
enfeitar a entrada da casa, mesmo sem nunca terem tocado. Era chique parecer
francês naquela época.
Cantamos três cânones, além de uma música
do Haiti em francês crioulo. Como pôde uma nação tão abalada como essa criar
uma música tão sublime assim? A criação humana sempre negligenciou a miséria
social. Por alguns minutos remamos em direção à praia natal desses companheiros
latinos, tomando emprestados o barqueiro e a audácia deles. Os haitianos me
asseguraram de que eu não me afogaria. Caso esquecesse a letra, bastaria fazer
mímica ou careta.
A última vez em que eu tinha estado num
palco foi há oito anos quando meu pai subiu para me entregar o diploma de
Medicina. Todo mundo tinha que subir mais vezes num palco para saber como é
isso. Cinco anos após esse evento onde meu pai afirmou ter ali cumprido a sua
missão prá valer, ele decidiu voar para sempre sobre os tetos de Damasco e as
cúpulas douradas de suas mesquitas (só se descobre que os tetos de Damasco são
coloridos quando se voa a uma distância inatingível pela experiência terrena).
Foi ele quem imortalizou em mim uma de suas lições: “Os médicos árabes diziam
que a música é o melhor remédio prá alma”.
Eu me distraía o tempo todo ao encarar a
Michele. “ Je ferais mieux choisir mon
vocabulaire Pour te plaire Dans la langue de Molière.” (1) E
dizer que a Michele também tem um nome francês. Parece até que foi tudo de
propósito para que as coisas se encaixassem aqui, exceto que a mãe dela quis
poupar em um “L”, não permitindo que fosse Michelle. Se a francesa desesperada
de Assis Valente subiu o morro e foi parar num terreiro, será que a França
respondeu com uma Michele com um “L” só, morena e sensual, que canta em francês
crioulo?
E o que dizer então da Daniela, a regente?
Grávida de seis meses, ela tocava aquele coral numa empolgação, num fôlego,
numa completude. Quanta vida numa mulher tão coquette que carregava um troféu na barriga!!
Os querubins aplaudiram sem parar.
Confesso que vi até judeus e árabes de mãos dadas na platéia, desfazendo a cena
para bater palmas. Os rostos esboçados das mães dos meus contemporâneos
cumprimentavam a minha mãe agora ressuscitada atrás da cochia. Teria ela se
escondido para não constranger o seu guri?
Maurice Nahory, diretor geral da Aliança
Francesa, nos parabenizou, mas disse que precisávamos ensaiar mais. Os
franceses são tão educados.
Era hora de ser devolvido para o mundo lá
fora que me interrogava por onde eu tinha estado por alguns minutos.
- Senhor juiz, eu juro que só estava no
Coral da Aliança.
Receei ser cada vez mais parecido com o
meu pai que só pensava em trabalho. Um homem que vivia em dólar. Esse
repertório estreito não era culpa dele. A sociedade do espetáculo, toda
inundada de coca-cola e carros importados, nos exige cada vez mais o
aniquilamento daquilo que é tão genuíno dentro de nós.
Alguma transformação se processou em mim
nessa noite. Mas não vou conseguir contar para vocês qual é. Embora eu seja
desafinado e médico tal como Molière, não consigo ser bom escritor como ele. Da
mesma forma que a minha voz não se entende com as notas do piano, a minha
escrita ainda não alcança a força daquilo que sinto e que é muito maior do que
eu. Uma pena que um dia a gente morre.
Ziyad Abdel Hadi junho/2010
(1) trecho da música For me...formidable de Charles Aznavour